Caiçara, litoral do Rio de Janeiro, 1992.
__Tá indo prá onde, menina? – pergunta Sofia ao ver a filha passar carregando duas sacolas.
__Vou pegar umas erva no mato prá fazer uns tempero. Quer que eu traga alguma coisa prá senhora?
__Não. Vê se não demora causo que tem escola daqui a pouquinho!
__Tá, mamãe. Eu vou rapidinho, não demoro não.
__E essas bolsa toda aí?… É prá quê?… – Sofia diz intrigada.
__Ah, tô levando umas coisinha…! Uns potinho, umas tigela… Prá botar as erva, as folha… Eu trago de volta. Posso ir agora?
__Pode. E não demora, ouviu! Tem escola e tem trabalho também!
__Tá, mãe. Sua bença.
Júlia gostaria de poder contar para a mãe o que anda fazendo. Mas certamente Sofia não aprovaria se soubesse… Ela vai de bicicleta até o Rio Formoso e espera sentada embaixo de uma árvore.
Tira da sacola uma tigela, dois pratos, uma jarra, dois copos e talheres. Ouve o barulho da moto e sorri. Ele é pontual mesmo! O rapaz se aproxima segurando o capacete em uma das mãos e um rádio na outra. Senta-se ao lado de Júlia e a beija no rosto.
__Um piquenique sem música não tem graça. – ele diz ligando o rádio.
__Maravilha! Eu fiz uma comidinha especial prá você, meu bem! – ela abre a tigela sorridente – Tomara que goste!
__Hum…! Tá cheiroso! O que é?
__Eu acabei de inventar… Mas acho que você vai gostar! – Júlia forra ochão com uma toalha estampada e serve o almoço.
__Sabe que tem muito jeito prá cozinhar? Devia fazer um curso de gastronomia.
__Curso de quê?! Isso não é coisa de horóscopo, de ver as estrela no céu?…
__Não, Júlia! Isso é astrologia! Quem trabalha com comida, inventando pratos assim como você faz, é gastrônomo. Você tem muito talento, docinho! Vai ser uma grande gourmet!
__O quê?! Caramba, quanta palavra difícil, Pedro! Eu não sei falar essas coisa chique não!
__Deixa prá lá. O importante é que você cozinha divinamente e vai fazer muito sucesso com seus pratos!
__Vamos comer antes que esfria?
Às vezes ela não entende nada do que ele diz. Pedro é um rapaz da cidade, moderno e sofisticado… E ela é só uma garota do “interior”, de pouco estudo e ingênua! Tão diferentes e assim mesmo se apaixonaram… Hoje está fazendo três meses que namoram. Bem, é um namoro secreto ninguém sabe ainda…
__Quando a gente vai contar? – ela pergunta.
__Contar o quê?
__Da gente, ora…! Quando a gente vai contar pros outro?
__Ainda é cedo, docinho. Preciso preparar o espírito dos meus pais primeiro… Tem que ser aos poucos, entende?
__Eu sei. Prá mim vai ser complicado também. A mãe e o pai vai ficar uma fera quando saber…!
__Pois é. Tem muita gente envolvida, Júlia… Precisamos ter calma e muito cuidado. Nada de ficar falando de mim por aí, nada de marcar encontro por perto da cidade…!Se virem a gente vai ficar complicado!
__Tá certo… Vamos esperar mais um pouco.
Esperar. Júlia não se importa de esperar. Está feliz, apaixonada e cheia de planos para o futuro! Quer trabalhar num restaurante famoso na capital, comprar uma casinha para os pais, terminar os estudos e claro, casar com Pedro…!
Enquanto essas coisas não acontecem, ela vai levando sua vidinha de sempre: estuda no colégio pela manhã e trabalha na fábrica a tarde. Nos fins de semana ela ajuda a mãe na cozinha da fazenda Mina D’água. Vida besta de cidade do interior!
Caiçara é uma cidade pequena do litoral do norte do Rio de Janeiro, mas que recebe muitos turistas por causa de sua natureza exuberante… Além disso, a estória da cidade é muito interessante: o imperador Pedro II e sua família passaram uma longa temporada por lá… Se é verdade ninguém tem certeza. Mas os políticos tem explorado isso muito bem até hoje…!
No entanto, o que traz dinheiro para os cofres do prefeito não é a estória da passagem do imperador. A culinária maravilhosa de Caiçara tem enriquecido o prefeito ( e não a cidade! ) Mateus Silva… A fábrica de doces é um exemplo do “bom uso” que ele tem feito do dinheiro do povo.
Mas Júlia não entende de política e nem se interessa por esse assunto. O que a interessa é a comida. Gosta de cozinhar, de inventar pratos, misturar sabores! E especialmente de fazer doces. Tem uma boa mão para doces. Aprendeu alguma coisa com a mãe e a avó, mas seu estilo é único, diferente… Não cozinha como Sofia, com aquela obrigação e trivialidade. Vai para a cozinha feliz, cheia de idéias e por prazer sempre!…
Quando soube que o prefeito estava negociando a venda da Doceria Favo de Mel e da Fazenda Mina d’água para um poderoso empresário da capital ficou muito revoltada. A fábrica e a fazenda são patrimônios da cidade! Tudo bem, pertencem à família do prefeito há séculos, mas pertence também à cidade…
O poderoso Álvaro Agostine chegou a Caiçara com sua comitiva há cinco meses atrás e criou um tremendo rebuliço! Muita gente foi contra, fez protesto em frente a casa do prefeito, exigindo uma explicação… Entre essas pessoas estava Júlia de Castro. Ela queria saber o que o prefeito pretendia fazer em relação aos empregados da fábrica e da fazenda.
E foi assim, durante o tal protesto, que ela conheceu Pedro. Ele estava com o prefeito e Álvaro Agostine quando alguém atirou um ovo podre neles. Infelizmente, o ovo parou na esposa de Álvaro, a dondoca Raquel… Foi uma confusão danada! Um corre-corre horroroso, gente tentando invadir a casa do prefeito…!
Pedro ajudou Júlia a sair daquela loucura toda levando-a para o estacionamento do posto de gasolina. E foi assim que tudo começou entre eles.

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