Capítulo 14

6 de julho de 2010

__Quando a esmola é grande o santo desconfia! – diz Ronaldo enquanto coloca a caixa de ferramentas dentro da mala do carro – Essa estória de festa é conversa mole prá boi dormir, cumpadre! O prefeito e aqueles dois da capital tão tramando alguma coisa contra a gente…!

__Como assim, tio? – pergunta ingenuamente Júlia.

__Por causo que ninguém bom da cabeça vai querer um desafeto saracoteando na sua festa! O Álvaro Agostine convidou os operário tudo prá ir nessa tal festa… Por causo de quê ele ia fazer isso?… Prá mim ele vai aprontar alguma!…

__O cumpadre tem razão. – diz Francisco – Essa gente não dá ponto sem nó! Vão aprontar alguma coisa de ruim prá nós…

Eduarda dá uma risada.

__O que mais de ruim pode acontecer com a gente?… Já aconteceu tudo!

__Eu não sei, filha. Dessa gente eu espero tudo!

__A gente já tá sem trabalho mesmo! Uma desgraça a mais ou a menos não vai fazer diferença!

__Como você é positiva, Eduarda! – fala Júlia – Nós não pode pensar o pior não! Tem que ter fé!

__Fé em quê, garota? Que o doutor Álvaro vai ficar com pena de nós e deixar nós trabalhar na fábrica dele?… Que ele vai dar aumento prá nós?…

__Eu não sei não… Acho que não vou nessa porcaria de festa não. – fala Francisco entrando no carro.

__Isso não é prá nós, cumpadre! Aí tem coisa…! Por causo de quê eles ia convidar os operário da fábrica prá festa deles?

__Ex-operário, tio. Nós não trabalha mais na fábrica, esqueceu?

Exatamente. Ainda não é oficial, mas tudo indica que o novo dono da fábrica vai mesmo mandar todo mundo embora…! Há quem garanta ter visto ônibus vindo da capital com novos funcionários para a fábrica… De qualquer maneira, eles estão fora. É claro que Álvaro vai querer modernizar a fábrica e isso inclui o quadro de funcionários também. Gente mais preparada, equipamento mais moderno dará lugar ao artesanal…

Não é só o emprego que essas pessoas vão perder. Mas também – e principalmente – o estímulo, o gosto pela vida. O que Francisco e Sofia vão fazer da vida? Onde irão trabalhar agora? E talvez não tenham nem onde morar também… Júlia está aflita, muito aflita. Alguma coisa precisa ser feita!

__Eu acho que a gente deve ir na tal festa do prefeito, pai. – diz ela entrando no carro depois de Eduarda – A gente tem que saber o que tá acontecendo, poxa!

__Maluqueceu, Julita?! Que que nós vai fazer na festa dos rico, me fala?

__Ué, nós não foi convidado? O prefeito convidou o povo todo em praça pública outro dia! Então nós tem que ir, ora!

__É… – Ronaldo coça o queixo e sacode a cabeça – Acho que a Julita pode ter razão… Eu vou conversar com o Vítor e depois ver o que a gente decide.

Júlia sorri. Se forem mesmo a festa vai encontrar Pedro lá. E isso sim é muito bom! Estranho ele não comentar nada sobre a festa… Bem, talvez ele não queira misturar as coisas. Talvez ele esteja querendo protegê-la. Seja como for, ela está feliz porque irá vê-lo.

Às vezes Júlia sente-se incomodada por fazer segredo do seu namoro com Pedro. Não gosta de mentir, de esconder as coisas! Ela gosta de tudo às claras, sem rodeios…! Prometeu manter segredo, mas apenas por um tempo. Pedro disse que precisava de um tempo para “preparar o espírito” dos pais… E ela também precisava de um tempo para falar com os seus. Só que esse “tempo” já passou. E Júlia acha que já está na hora de contar a verdade para todo mundo.

 

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