Capítulo 16

15 de julho de 2010

Pronto, ela já está arrumada para a festa. Tudo bem, não deveria estar animada… Mas está muito animada! Afinal, vai encontrar Pedro por lá e isso para ela é o mais importante. Não deveria ser, mas não é. Sabe que deveria pensar nos problemas de sua família e sente-se mal em não fazer isso… No entanto, é o amor que sente por Pedro que vem em primeiro lugar em seu coração neste momento.

Júlia respira fundo e tenta não se culpar por pensar assim. Ela não vê a hora de contar para todo mundo sobre seu namoro com Pedro…! Seus pais não vão aceitar de jeito nenhum, mas ela não se importa. Está disposta a enfrentar os pais, se preciso for, para ficar com Pedro!…

Ao chegarem na fazenda do prefeito os Castro são estranhamente bem recebidos e conduzidos às mesas. Francisco e Sofia estão desconfiados, sem entender direito esse surto de bondade e generosidade do prefeito Mateus… De repente, Júlia tem uma sensação de medo, uma angústia inexplicável… Um pressentimento de que algo ruim está para acontecer…

__Mãe, pai, vamo embora? – ela pergunta puxando o braço da mãe.

__Mas não foi você que inventou de vim nessa maldita festa, Julita?! – diz Sofia – Como é que agora quer ir embora?…

__Sei lá… Deu uma agonia, de repente…! Vamo prá casa?

__Agora nós já tá aqui e vai ficar aqui! – fala Sofia.

__Eu tô curioso prá saber o que esse povo tá armando prá nós! – diz Francisco – Nesse angú tem caroço!

__Mas, pai…

__Olha só! É o prefeito mais o dr.Álvaro e o dr.Rafael… E aquelas ali é as esposa deles…! – comenta Sofia cutucando o braço do marido.

__Essa gente tá tudo se rindo por causo que tão com dinheiro e o futuro garantido! – diz Vítor chegando nesse instante com os pais – Nós é que tá na pior aqui!…

__E prá que eles quer a gente nessa festa que não tem nada a ver com a gente?… – diz Vilma visivelmente incomodada por estar ali…

__Isso é o que nós vamo ver, cumadre…! – fala Francisco.

__A Júlia tá querendo ir prá casa… Se não foi ela que inventou de vim?…

__Tô com um pressentimento… Uma coisa ruim no peito…

__Que bobagem, Julita! Não vai acontecer nada de ruim! – fala Vítor – Pior do que tá prá nós, não pode ficar!

__É isso mesmo, filha. Te acalma que não há de ser nada…! – fala Vilma com um sorriso, mas sem um pingo de convicção…

__Isso é frescura, isso sim! – diz Eduarda – Fricote de menina boba! Até porque isso é assunto de adulto e não de criança!

Júlia nem presta atenção no que a irmã diz. Está aflita, ansiosa, uma coisa esquisita… Senta numa cadeira e corre os olhos pelo quintal. Ainda não viu Pedro. Será que ele não vem? Claro que vem. Os pais estão na festa, são os convidados de honra do prefeito…

__Não tô vendo os filho do dr.Rafael… – ela diz como quem não quer nada.

__A moça e o rapaz? – responde Vilma – Tão por aí, eu vi eles lá na entrada da fazenda.

__Pensei que eles não ia vim…

__Que idéia, Julita! – diz Eduarda – E eles ia deixar de vim na própria festa deles? Até porque, é o noivado do tal Pedro…

__O quê? – Júlia não entende direito… – Que noivado?

__O moço vai ficar noivo da filha do dr.Álvaro. Vão juntar as fortuna…

__Como assim “ficar noivo”? – a voz de Júlia sai fraca e trêmula…

__É o que se faz antes de casar, bobona!

__Mas eles nem tão namorando…

Eduarda ri da ingenuidade dela.

__Claro que tão, Júlia! Todo mundo sabe disso! Cansei de ver os dois passeando de moto pela cidade!

Júlia sente as pernas fraquejarem e segura-se na ponta da mesa. Noivos… Pedro e a filha do Rafael… Não, isso não é verdade!… Deve ser fofoca de alguém… E depois, sua irmã tem uma língua ferina, parece não gostar de ver ninguém feliz… Ou ela se confundiu ou está sendo maldosa como sempre é!… Júlia olha em volta a procura de Pedro, com o coração disparado e cheio de angústia… Ele não está aqui. Talvez não tenha vindo. É, isso mesmo, ele não veio a festa. Júlia respira fundo e dá um sorrisinho sem graça.

__Mas acho que ele nem veio prá festa…! – diz ela tentando parecer despreocupada.

__Claro que veio! – exclama Vilma – Olha ele e a noiva ali!

Pedro e Bruna estão na varanda da fazenda, de mãos dadas e sorridentes… Júlia não acredita nisso. Não pode ser verdade! Ele não faria isso com ela…! Ele nunca disse que… Cega pelo desespero, Júlia caminha até a varanda, os olhos fixos em Pedro e Bruna, como se estivesse diante de uma miragem…

Ela sobe as escadinhas e fica frente a frente com os dois. O sorriso desaparece dos lábios de Pedro ao vê-la.

__A cozinha é do outro lado, menina. - diz Bruna enquanto acaricia o rosto de Pedro.

__Não sou empregada não. – ela fala com a voz trêmula – Sou a namorada do Pedro.

__A namorada do Pedro sou eu. – responde Bruna com um sorriso que é puro deboche… – Namorada não; noiva. Acho que você errou o caminho da roça, menina!… O lugar dos caipiras é lá fora!

__Nós tá namorando… Diz prá ela, Pedro. – ela sente um misto de raiva e incredulidade…

__O quê?!? Meu bem, esse homem é meu noivo! Você deve ser maluca! Vai embora antes que eu perca a paciência!

__É mentira! A gente tá namorando faz tempo…! Fala prá ela, Pedro!

__Se pensa que vai estragar minha festa de noivado, está muito enganada. Melhor você ir embora antes que eu chame os seguranças prá te jogar lá fora!

__Calma, Bruna!… – finalmente Pedro diz alguma coisa – Deixa eu reslover isso, tá legal?

__Resolver como? Eu vou chamar os seguranças!

__Calma, calma! Eu resolvo isso, já disse. – ele se aproxima de Júlia e a segura pelo braço – Vem comigo, Júlia.

__Conhece essa caipira, Pedro?…

__Claro que ele conhece! A gente é namorado faz um tempão e…

__O quê?! Que absurdo é esse, Pedro?

__Depois eu te explico tudo, Bruna. – ele sai andando e puxando Júlia pelo braço – Deixa eu falar com ela primeiro, ok?

__Falar o quê?… Porque ela tá dizendo é sua namorada?

Pedro carrega Júlia para um canto da fazenda longe de todos. Os olhos de Júlia estão cheios de lágrimas, seu coração bate descontroladamente e a sua mente dá mil voltas sem entender direito o que está acontecendo…

__Júlia, eu preciso te falar uma coisa…

__Por causo do quê ela disse que é tua noiva? Nós não tá namorando, Pedro? Como que então ela diz que é tua noiva?…

__Eu queria te contar antes, mas… Eu queria contar. Mas não tive coragem… Eu…

__Contar o quê?… – ela pergunta como se não soubesse a resposta…

__Júlia… Eu e Bruna… Nós nos conhecemos desde a infância… E nós namoramos… Eu tentei contar, mas não consegui… Eu… Júlia, eu quero que você entenda que é muito difícil prá mim ter de… – Pedro fala e parece outra pessoa, tão hesitante, tão fraco e confuso…!

__Não tô entendendo nada! Que estória é essa de noivado, Pedro? Porque ela tá dizendo que é tua noiva?…

Pedro olha nos olhos de Júlia. E então ela compreende tudo… Foi enganada… Pedro a enganou. Ele mentiu quando disse que a amava… Mentiu quando disse que ela era amulher da sua vida e que queria se casar com ela um dia… Era tudo mentira.

__Júlia, eu vou me casar com a Bruna. Eu… Eu sei que devia ter contado logo a você, mas… É que a situação ficou muito complicada e… Eu acabei me envolvendo com você… Sinto muito…

__Vai casar com aquela sujeita… E tava de namoro comigo?… Disse que me amava, Pedro. Disse que nós ia casar e morar na capital… Tava mentindo o tempo todo!

__Não, o tempo todo não! Eu sei que foi errado, sei que devia ter contado sobre a Bruna… Mas eu gostei de você de verdade, Júlia.

__Gostou…? Gostou de mim…? – as lágrimas caem por seu rosto e molham suas palavras – Como é isso, Pedro? Você disse que me amava! A gente fez um monte de plano, tinha combinado tanta coisa junto! Eu não acredito que você tá de casamento marcado com aquela bruxa loura! Meu Deus, todo mundo sabia e a idiota aqui não!

__Júlia, eu ia contar…! Eu estava esperando o momento certo prá te contar… Olha, eu sinto muito se te magoei… Mas eu vou casar com a Bruna e essa festa é do nosso noivado… Vamos marcar a data e…

Ela dá um tapa nele. Não sabe onde arranjou forças para fazer isso, mas faz.

__Júlia, eu sinto tanto se…

__Cala a boca! – ela grita e dá outro tapa nele, furiosa, revoltada, magoada… – Cala essa boca, não diz mais nada!

__Por favor, entenda…

__Não quero entender nada!

__Isso é um assunto de família, as coisas não estão muito boas prá minha família… Eu já tinha compromisso com Bruna antes de te conhecer… As nossas famílias se conhecem há anos!… É natural que um dia eu e Bruna nos casemos…

__Natural? Natural?!? Acha natural namorar com uma enquanto tá de casamento marcado com outra?! – ela fala, mas não consegue escutar o som de sua própria voz tamanha a sua ira… –Isso não é natural! Isso é cruel!

__Júlia, não posso ficar com você!… Eu tenho um compromisso com Bruna de muito tempo… E também com a família dela… O nosso romance não pode ir adiante, Júlia. Eu sinto muito se te fiz pensar assim, se te fiz acreditar que iria além disso… Também me envolvi e cheguei a pensar que poderia ter alguma coisa mais séria entre nós e… Mas não vai ser possível, tem muita coisa em jogo e a minha vida agora tá muito complicada… – a voz de Pedro ainda é hesitante só que agora tem um tom de desespero como se quisesse acabar logo com isso… – Eu sei que é duro prá você…

__Você não pode tá falando sério… Não pode tá falando sério! Não pode fazer isso comigo, Pedro! Eu te amo!… E você disse que também me ama…! – Júlia agarra-o pela camisa descontrolada – Ñão pode ser verdade… Essa é uma brincadeira de mau gosto, muito mau gosto!…

__Não é brincadeira, Júlia. – ele se desvencilha dela – Eu errei em não contar a verdade, em deixar essa aventura ir tão longe… Mas é assim que é. Por favor, vá embora. 

 

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