1992.
Júlia abre os olhos e sente a cabeça doer. Tenta levantar e seu corpo dói. Olha em volta e vê uma janela com cortinas brancas. No teto, um lustre antigo. “Onde estou?”, ela pensa, muito confusa, sem lembrar direito o que aconteceu. “Que lugar é esse?”, ela observa o pequeno quarto de pouquíssimos móveis e paredes descascadas. “Como eu vim parar aqui?”
A dor de cabeça a atordoa, as imagens em sua mente a confunde… O que foi que aconteceu realmente?… Seus pensamentos são interrompidos pelo barulho que vem de fora. Um falatório, uma discussão, talvez…
De repente, a porta do quarto se abre e uma mulher negra, forte, de cabelos grisalhos entra.
__Ah, você acordou! Finalmente! – diz a mulher sentando num banquinho perto da cama.
__Onde eu tô? – Júlia pergunta a voz num fio.
__A salvo. Felizmente, a salvo. – a mulher sorri.
__Que que aconteceu comigo?…
__Você não lembra, querida?
__Mais ou menos… Eu tava num galpão… Tinha fogo… A Bruna botou fogo… Eu desmaiei… Que lugar é esse?
__Eu estava esperando você acordar prá te levar ao médico. Não posso cuidar de você no estado em que está…! Precisa de cuidados médicos de verdade.
__A minha cabeça…
__Eu sei, tá doendo muito. Mas eu já arrumei transporte prá te levar até a cidade. Você precisa de muito cuidado, menina.
__Meu corpo tá ardendo, como que tivesse queimado…
A mulher que até agora sorria fica séria.
__É por isso que precisa ir pro hospital. Você se queimou um pouco no incêndio…
__O quê? - de repente, Júlia lembra da gravidez… – E o meu filho…? Eu tô esperando um filho, moça…
__Vou trazer alguma coisa prá você comer e depois vou te levar pro hospital.
__Moça, eu quero saber o que aconteceu…
__Primeiro, você vai se cuidar; depois vamos conversar sobre o que te aconteceu. Certo?
__Tá certo.
Júlia começa a lembrar do que aconteceu. Apesar das dores que sente, ela está mais tranquila. O que a incomoda realmente é como veio parar neste lugar… Seu pensamento principal é para o filho que espera. É tudo o que importa agora, que seu filho esteja a salvo… Mas sua intuição lhe diz que pode ter acontecido o pior. Aos poucos, ela sente os olhos pesarem e pega no sono novamente.

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