Francisco abre a porta para o delegado entrar.
__Bom dia, seu Francisco. Podemos conversar um pouco? – diz o delegado.
__Conversar o quê?
__Sobre sua filha Júlia.
__Eu não tenho mais nada prá falar daquela criatura, delegado.
__Bruna Agostine depôs ontem à tarde. Ela acusou sua filha de chantageá-la… O senhor sabia que Júlia estava chantageando Bruna por causa de Pedro Moura?
__Não. Eu não sabia de nada dessas coisa. E quero continuar não sabendo.
__Sua filha tentou matar Bruna no galpão… Foi o que ela disse no depoimento ontem. O senhor…
__Delegado, eu tenho que trabalhar agora. Não tenho tempo prá conversa fiada.
__Mas as acusações que Bruna fez foram muito sérias!… Ela disse que…
__Já disse que não quero saber disso, delegado! E se a moça da cidade disse essas coisa, foi por causo que é verdade. Júlia sempre deu trabalho prá nós. Não obedecia nós, fazia as coisa do jeito dela, causando até vergonha em nós…! Eu não duvido nadinha se ela não fez essas maldade toda prá poder ficar com o rapaz da cidade!
__Mesmo? – o delegado está chocado e ao mesmo tempo intrigado – O senhor como pai acha mesmo que ela seria capaz de cometer tais crimes?
__Como pai, eu digo que falhei na educação dela, causo que nunca que eu ia ensinar um filho meu a matar e fazer chantagem… Mas como homem, eu digo que sim. Ela pode muito bem ter tentado tirar a vida da menina Bruna, por raiva, inveja, sei lá o que mais.
O delegado dá um sorrisinho e se dirige à porta.
__Bem, eu… Acho que é só. Obrigado, seu Francisco.
Sofia e Francisco fizeram um enterro simbólico da filha. Na verdade, quem os convenceu a dar um descanso decente à Júlia foi Vítor, já que eles não estavam nem um pouco preocupados com isso… Poucas pessoas compareceram, apenas os amigos mais fiéis dos Castro e um ou outro operário da fábrica. E é claro, o prefeito Mateus, que queria fazer um “pequeno depoimento” em homenagem à Júlia, mas foi aconselhado a não fazê-lo por motivos óbvios…
Depois, o prefeito foi falar com Francisco e Sofia.
__A situação de vocês na fábrica não é nada boa… – disse ele – Vocês devem saber porquê. A fábrica não pertence mais a mim, não sou eu quem dá as ordens agora. O doutor Álvaro está no comando de tudo agora…
__Se tem alguma coisa prá dizer prá nós, o prefeito diz logo. – interrompeu Sofia – Não fica nesse lenga-lenga de político não!
__Bom, é o seguinte… O doutor Álvaro tá renovando o quadro de funcionários da fábrica. Acontece que com tanta gente nova, máquinas novas, uma visão mais moderna, não tem lugar prá vocês dois.
__Tá mandando nós embora, prefeito? – quis saber Francisco.
__É isso, basicamente é isso. O Álvaro não quer mais vocês trabalhando na fábrica. E isso vale pros seus filhos também.
__Mas onde nós vai arranjar trabalho por aqui? E com essa idade que nós tá…?
__Pois é, essa é uma questão que o doutor Álvaro já resolveu também… – ele sorriu e colocou a mão no ombro de Francisco – Ele acha que vocês devem ir embora de Caiçaras. E eu também acho que devem. Será melhor prá todo mundo, não concordam? Vão tentar a sorte em outra cidade, onde ninguém conheçam vocês, onde ninguém tenha ódio de vocês! Vai ser melhor prá todo mundo assim. – o prefeito sorriu de novo de um modo odioso – Até porque, vocês não tem mais nada aqui, agora que Júlia morreu… Estou certo?
__Tá certo, prefeito. Tá certo sim. Nós perdeu o emprego de anos, não pode mais nem morar na cidade… – Sofia se empertigou e segurou o braço do marido – Tudo por causa da Júlia. Nós vai embora sim, prefeito. Mas por causo que nós tá muito envergonhado com essas coisa toda que aconteceu. E não por que o doutorzinho quer.
__Acho que vocês não estão em posição de exigir nada, meus amigos. Vocês não tem escolha.

0 comentários:
Postar um comentário