Capítulo 64

24 de janeiro de 2011

Sofia dá um suspiro longo enquanto põe a mesa do jantar. Sentado no sofá, Francisco ouve com atenção a entrevista de Rafael Moura na televisão.

__Agora, a fábrica Doce Vovó, será vendida. Dentro de alguns meses o novo dono assumirá a fábrica. E também não se chamará mais Doce Vovó… – ele faz uma pausa e sorri antes de continuar – O nome da fábrica será Meu Docinho. Escolha dos novos donos, é claro.

__Que canalha! – exclama Francisco – Esse desgraçado continua safado!

__Prá mim não é surpresa ele se livrar da fábrica! – diz Sofia – Agora que ele tá naquela empresa milionária vai querer a fábrica de doce prá quê?

__Tomara que ele e aquele outro comparsa dele vão pro quinto dos inferno!

__Gente rica e poderosa nunca é castigada, meu velho! E nós sim , é que tá no inferno desde que saiu de Caiçara!

Francisco levanta e anda até a porta da sala.

__Eles destruiram a nossa vida… Acabaram com nós! Olha prá nós agora, vivendo no subúrbio, na cidade grande, sem ter trabalho direito…

__Não adianta se lamentar, Francisco. Nós tem é que continuar vivendo.

__E a nossa filha Eduarda?… Que fim ela levou, mulher?

Sofia se aproxima do marido e se abraça a ele.

__Ela se perdeu nesse mundo de meu Deus, meu velho!… Se perdeu prá sempre… E a culpa disso é da Júlia.

__Júlia tá morta, Sofia! A Eduarda se desgarrou de nós por causo que não queria mais viver na pobreza! A Júlia não tem nada que ver com isso.

__Tem sim! Ela é a culpada de tudo, de toda a nossa desgraça! Porque foi se meter com aquele sujeitinho, dar o golpe nele! Olha o que aconteceu com nós, Francisco!

João entra neste momento.

__Pai, mãe… Que loucura é essa?! Por que vocês tão falando essas coisa da Júlia?

__Falando a verdade, João. Mas sabia que o Rafael Moura vai vender a fábrica de Caiçara? – diz Sofia.

__Mesmo? Assim do nada?

__É, e vai mudar o nome da fábrica também!

__Agora é Meu Docinho! – explica Francisco.

__Meu Docinho… A Júlia queria ter uma lojinha com esse nome… – lembra João, emocionado.

__A Júlia queria era se dar bem enganando aquele ricaço! – fala Sofia.

__Para com isso, mãe! Ela é tua filha, não devia falar desse jeito dela…!

__Você vai comer?  Tô botando a janta na mesa. – ela desconversa.

__É, vamos comer e mudar o rumo dessa prosa. – diz Francisco – Como que tá lá no teu trabalho, filho?

__Ruim. Mas podia ser pior. Eu podia tá desempregado.

Nesses sete anos, Sofia, Francisco e João tentam sobreviver no Rio de Janeiro. Depois de serem praticamente expulsos de Caiçara, a família Castro passou por várias cidades no interior do Rio, sempre vivendo com dificuldades…

Eduarda não aguentou tanta privação e um dia foi embora. Simplesmente fez as malas e foi. Depois de dois anos pulando de cidade em cidade, eles chegaram à capital. E conseguiram trabalho numa pensão.

Mas foi uma época muito ruim, cheia de sofrimento e humilhações, algumas vezes até passaram fome… Então, João arranjou emprego num restaurante e Francisco como porteiro num prédio da Zona Sul… Sofia passou a fazer doces para ajudar no orçamento, mas acabou adoecendo…

Hoje, estão morando numa casa de fundos no subúrbio. E quem sustenta a casa no momento é João, que trabalha como auxiliar de serviços gerais numa firma de advocacia. O salário é pouco e a firma corre o risco de fechar…

__Mãe, você sabe que fim levou o caderno de receita da Júlia? – pergunta João.

__Outra vez essa conversa, João? Já te falei que não sei de caderno nenhum! Aquela porcaria onde ela escrevia as receita maluca que inventava?… Eu não sei onde foi parar não. Talvez tava com ela quando morreu no incêndio…

__Será?… Será? – diz João começando a pensar nessa possibilidade.

__Mas prá quê tu quer o tal caderno?

__Sei lá. Prá guardar de lembrança… Quem sabe não tem uma receita boa que pode tirar a gente desse miserê?…

Sofia dá uma risada.

__Receita boa?! Da Júlia? Impossível! Ela era doida, inventava uns prato que misturava umas coisa diferente…! Claro que ninguém ia comer aquelas gororoba!

__Sei não… Pro povo lá do interior, até podia ser esquisito. Mas pro povo aqui da cidade, ia ser novidade!

__Esquece isso, João. Esquece aquela maldita de uma vez!

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